
A atmosfera naquele quarto era terrível. Cigarros jaziam no chão, garrafas de uísque e cerveja disputavam o espaço com roupas sujas e restos de lanches. Os ratos não tardariam a chegar, como sempre chegaram...
Jonas nasceu prematuro no ano de 1968. Era um período conturbado politicamente, mas menos morto culturalmente do que os tempos de hoje. “Tínhamos um inimigo concreto contra o qual lutar”, dizia o ex-idealista Jonas. Dos sonhos e utopias, restavam apenas a tatuagem desbotada do símbolo do anarquismo e os posters surrados de Che, Proudhon, Bakunin, Malatesta e do Black Block. O caminho para ele sempre foi tortuoso, de forma que se acostumou a nunca andar na linha. Adorava ouvir música clássica no máximo volume fumando seu baseado e tomando cerveja gelada. Gostava muito de Johnny Cash, especialmente de Walk the line. “Because, you are mine, I walk the line”. Era a sua música, a música que embalou seus primeiros encontros com Geórgia no final dos anos 80. “Eu lembro como se fosse hoje. Tocava Bob Dylan, não lembro certo o som, e ela balançava seu vestido no ritmo do som. Cheguei timidamente e lhe ofereci uma cerveja que foi recusada. Mulher difícil, é dessas que eu gosto, pensei”, confidenciava aos amigos, entre as baforadas.
Dia 28 março de 1987
A ditadura militar já havia terminado. O Brasil vivia uma nova era e logo seriam convocadas eleições para a presidência da república. Eleição que elegeria um dos maiores crápulas que este país já teve. Apesar da ditadura ter, oficialmente, terminado, a polícia continuava sua “dura” nas ruas. Mais de dois jovens reunidos era considerado motim. Nesse dia, Jonas ia para uma festa de formatura de um amigo seu. Michel e Roberto, seus colegas da faculdade de Música, chegaram pontualmente às 20 horas. Eles fariam o aquecimento ali, bebendo cerveja e fumando a ótima maconha que Michel sempre conseguia com um amigo seu paraguaio que costumava plantar em casa. Os pais de Jonas sempre foram liberais nesse sentido. Eram ex-hippies. Foi deles que o rapaz herdou o idealismo e sua fome de viver. Devidamente chapados, os três partem para a festa.
No caminho, uma barreira policial estava ocupada em espancar dois negrinhos mirrados no chão e por isso não se ateram àqueles três jovens de classe média e “emaconhados”, como diriam os antigos. “Bah cara, que horror . Olha o que estão fazendo esses covardes! Vamos denunciar”, disse Michel. Era o mais afoito da turma. Os outros dois, visto o absurdo da frase, riram. Afinal, como denunciar o Poder? Para quem? Além do mais, Michel, o porralouca estava com シ de maconha no bolso do paletó. Assim continuaram no caminho. Passando por um buteco, Jonas quis pegar mais uma cerveja para ir tomando. No local, já subúrbio da cidade, havia toda a espécie de excrementos sociais, prostitutas, pederastas, velhos bêbados e mendigos. “Hey, me dá uma Polar”. A garçonete, uma gorda de sobrancelhas grossas, entregou o pedido. O três seguiram.
Mais uma barreira policial. “Porra, os homens estão afim de trabalho hoje, hein?”, disse Roberto. “Pois, parece que sim”, retrucou Jonas amedrontado com a situação. Dessa vez não haviam negrinhos mirrados para salvá-los do atraque. Michel mexia nos bolsos enquanto iam em direção aos dois policiais que os fitavam diretamente. “Moleques, o que fazem na rua essa hora?” . Apesar de não esconder o nervosismo foi Michel quem respondeu à inquisição: “Estamos indo para uma festa de formatura”, disse com um sorriso nervoso. “Pois, apressem-se, as ruas estão cheias de marginais afoitos para roubar e praticar violência com jovens como vocês”. Ufa, estavam a salvo mais uma vez. O preconceito os havia salvo mais uma vez. “Ah cara, tudo bem que foi bom para nós, mas tu sabes bem por que eles não nos revistaram, né?”, questionou Michel. Todos fizeram sim com a cabeça. Finalmente chegaram no local onde seria a festa. Apesar de ser no subúrbio da cidade, a casa era grande e estilosa. Tinha dois andares e só se ouviam gritos e muito rock n roll. A noite prometia.
Os três entraram na casa cheio de banca e distribuindo “ois” e olhares pretensamente sensuais para as garotas. Chegaram no formando, um garoto que nenhum dos três suportava, mas tinha amigas muito bonitas, tinha bom gosto musical e dava festas regadas a muita cerveja e uísque 12 anos. Cumprimentaram Aldo rapidamente e foram em direção a um canto. A vitrola arrotava Little Richard. Um grupo de garotas dançava provocante logo à frente. Os três as fitavam. “Porra cara, estou apaixonado, eu acho”. “Ah, eu estou é com pau duro”. “Sei lá, não achei nenhuma delas lá essas coisas”,. O terceiro era o efeminado Roberto. Todos já sabiam da sua fama de fazer programas com velhas e velhos em troca de drogas. Jogava nos dois times, mas tinha um lado gay mais forte, embora ninguém quisesse admitir. De qualquer forma, a pureza daquela amizade, construída desde os tempos de colégio, era mais forte do que qualquer preconceito. Somente se olharam e riram. Michel foi buscar mais cerveja na geladeira. Já trouxe seis de uma levada só para não ter que fazer todo o trânsito novamente. “Cara, só tem garotas lindas nesse lugar. Que paraíso!”, disse satisfeito. Abriram as latas e tomaram. Jonas já não tirava uma das meninas do seu campo de visão. Ela saia, ia buscar refrigerante, conversava com Aldo, ia no banheiro, sentava, levantava e lá estava o olhar apaixonado de Jonas. Foi inexplicável. Duas cervejas depois, Jonas exclamou: “cara, eu preciso fumar um baseado. Vou chegar naquela de vestido azul”. Era Geórgia.
Jonas pegou o baseado com Michel e foi em direção ao banheiro passando, propositadamente, por Geórgia e a encostando no ombro. Ele estremeceu. Simplesmente inexplicável! Está certo que Jonas nunca foi um cara de transar muitas mulheres, pois era introvertido demais, apesar de não ser feio. Era alto e loiro, tinha um físico privilegiado pelos 10 anos de natação. Naquela altura, no auge dos seus 19 anos, tinha trepado com apenas sete mulheres, sendo duas ex-namoradas e o restante prostitutas. Uma coisa era certa, esse frio no estômago, que corria pela espinha, ele nunca havia sentido.
Trancou-se no banheiro e acendeu o baseado. O banheiro já fedia a mijo. Lembrava uma rodoviária. A estratégia era fumar aquele baseado o mais rápido possível. Foi o que fez, apesar de que, quando ficava chapado dificilmente conseguir discernir corretamente o passar do tempo. Foi demorado para ele, mas rápido para vocês, leitores. “Puta merda, e se estão sentindo o cheiro? E se estão todos na porta esperando eu sair para me darem o flagrante? E se...”.
Saiu do banheiro e foi na geladeira pegar mais cervejas. Não queria se juntar com os dois amigos, queria apenas ficar ali, tomando cerveja e criando coragem para chegar em Geórgia. Quase uma hora e depois de ter visto ela dar fora na metade dos caras do recinto, Jonas resolveu chegar. O que poderia receber? Um não? A vida já lhe dera vários e ele estava ali, forte. “Olá, quer uma cerveja? Legal esse som, né?”. Na vitrola rodava um Willie Nelson, provavelmente lá dos primórdios, que pouco conhecia apesar de ser um adorador do folk norte-americano. Geórgia, sem deixar de se remexer e mal lhe olhando, disse secamente: “Não”. Jonas virou-se e foi ao encontro dos amigos. “Vamos embora pessoal, acho que essa festa acabou”, disse. O seu ar autoritário raramente era contestado pelos amigos, que o seguiram.
No caminho para casa, Jonas não conseguia mais interagir com seus interlocutores inevitavelmente bêbados, chapados e chatos. Finalmente em casa, conseguiu parar para pensar. Não poderia deixar escapar aquela garota, que despertou-lhe um sentimento tão inesperado quanto estranho. Mas Jonas sabia-se um covarde quando o assunto era esse. “Eu preciso do telefone dela, algum contato”, pensou. Maquinando a madrugada toda, lembrou de perguntar para o Aldo, se ele tinha o contato da menina. Ligou imediatamente. “Aldo, por um acaso, tens o telefone daquela menina, a Geórgia?”. “Está afim de comê-la, né? Mas esquece, a cidade inteira quer, mas acho que ela é frígida ou machorra mesmo. Todas as amigas já deram e dela não se tem notícia. A última que lembro é que um cara resolveu espalhar mentiras sobre ter bolinado ela e ela arrebentou a cara do coitado com um tijolo”. “Eu não quero comê-la, cara. Eu quero amá-la de verdade também”. Aquele papo piegas levou Aldo a chorar de tanto rir. Quando parou o espetáculo fiasquento, Jonas voltou a questionar: “E aí, tens o telefone ou não?”. Aldo conseguiu notar que o negócio estava ficando sério, apesar de toda sua debilidade mental que geralmente o tirava qualquer capacidade de discernimento. Era o legítimo chato. “Toma. Anota aí”.
29 de março de 1987
Agora o próximo passo era ter coragem e ligar. Haja uísque, haja maconha, haja coragem diluída em anfetaminas das mais variadas cores. O dia amanheceu igual a todos. Sol e pássaros cantando. Não, não, o sol não cantava. Jonas queria ficar na cama, mas o trabalho lhe chamava. Era escravo de uma loja de departamentos. Ficava responsável pela parte dos esportes, graças aos seus conhecimentos no assunto. Aquele dia todo ficou desligado. Só conseguia pensar em Geórgia e em qual abordagem faria quando ligasse para ela. A decisão estava tomada.
“Porra Jonas! Olha o cliente ali, vai atender! Em que mundo tu estás?”, esbravejou o gerente ao ver uma senhora de meia-idade que, provavelmente iria comprar um presente para seu filho, marido ou amante mais jovem. Foi atendê-la e era isso mesmo. “Quero um tênis para corrida. Meu namorado (ruborizou a face quando falou isso) adora correr na avenida principal”. Ofereci o mais caro, que me daria uma comissão melhor. Ela levou. Michel apareceu na loja logo depois do meu lanche. Estava eufórico, provavelmente bêbado ou ligado com alguma anfetamina, a droga do momento. “O que tu queres cara? Estou trabalhando!”. Michel mexia freneticamente no bolso e denunciava o nervosismo através do seu cacoete, o olho piscando. Ele não respondeu nada. “O que houve?”, questionou Jonas. Ele parou de se mexer, olhou para os dois lados e chamou Jonas em um canto da loja. “Cara, a polícia está na minha cola. Fiquei sabendo que estiveram lá em casa quando não tinha ninguém. Um vizinho me contou”. A situação dele era complicada, mas não muito mais que a minha. Ambos tínhamos medo. Maldito medo que nos torna humanos, demasiadamente humanos. “Cara, fica lá em casa uns dias. Meus pais não reclamarão, desde que tu fiques o tempo todo no meu quarto e não coma os salgados de soja deles”. “Obrigado, Alemão. Sabia que não me deixarias na mão”. Dizendo isso, virou as costas e foi embora com aquela ginga de malandro que só ele tinha. Parecia um dançarino de street dance, apesar de dizer odiar Hip Hop.
Chegando em casa, meus pais já haviam chegado do trabalho e estavam bebendo no sofá e vendo pela milésima vez o Ponto de Mutação, de Franz Capra. Peguei uma cerveja e fui para o quarto. “O que eu falo? Preciso achar um gancho... ora ora, foda-se vou convidá-la para ir no cinema. O que está dando no cinema? Porra, só tem lixo nessa cidade... Shows? Bom, vou ligar para o Júlio”. Júlio tinha uma banda de rock n roll clássico que tocava só covers de Jerry Lee Lewis até Raul Seixas e Camisa de Vênus. O nome de sua banda era Rollover. Ele sabia tudo o que estava acontecendo de bom na cidade, o que não era muito. “Alemão, final de semana que vem tocará uma banda chamada Caralho Afoito, no Trashes. Eles tocam muito. São recém chegados de Vacaria”. Buenas, o programa já estava confirmado. Faltava a coragem.
Licença para encarnar no personagem: sabe, algumas mulheres realmente assustam, e são dessas, justamente, as que mais gosto. Elas querem a nossa alma. O único medo, e é por isso que me poupo, é de que, uma vez com a minha pobre alma, elas não a cuidem direito. Trepar por trepar é muito bom, sem envolvimento, mas quando se leva a chamada “chave de buceta”, meu irmão, se está fudido. Eu tinha medo.
Dia 2 de abril de 1987
“Boa tarde, eu posso falar com a Geórgia?”
" É ela mesma. Quem está falando”
“ Jonas. Te conheci na festa do Adroaldo ontem. Não sei é se tu me conheceu”
“ Não sei. Tanta gente ontem. Tanta gente chata que prefiro nem lembrar”
“ Eu não sou chato. Te ofereci uma cerveja e você não quis. Virei as costas e fui embora”
“ É, ontem eu estava tomando remédio e não podia beber. Mas lembro de um cara que não foi tão insistente. Parabéns”
Jonas respirou fundo. Ela estava dando abertura e ele ia ficando cada vez menos nervoso.
“Mas eaí, no próximo final de semana tem um show muito legal da uma banda chamada Caralho Afoito. Eles tocam um rock n roll de primeira. Está afim de ir?”
“Que tipo de rock n roll?”
“Ah, pelo que me disseram tocam folk também, tipo Willie Nelson, Johnny Cash, Joan Baez e Bob Dylan, Tem até uma garota no vocal”
“Pô, legal. Adoro Cash. Vou certo, só não sei onde tu moras. Tu sabe onde moro? Pode me pegar aqui? Final de semana já vou estar bebendo e tudo pode ficar mais divertido”.
Dia 9 de abril
Jonas nem podia acreditar. Geórgia parecia outra pessoa. Receptiva, animada. Mal a conhecia e já sentia-se preso à sua alma. Meu deus! Isso tinha tudo para dar merda! A semana custou a passar. Trabalho, faculdade, os mesmos papos idiotas, os mesmos colegas, os mesmos amigos sequelados, as mesmas drogas... tudo igual. E só uma coisa no pensamento: aquele anjo. Geórgia tinha mais ou menos minha altura, era alta para uma garota, olhos amendoados, cabelo bem preto e liso, tinha traços indígenas. Um sinal de que, provavelmente, Jonas estava ficando apaixonado era ele ter reparado nisso e não na bunda ou nas coxas da moçoila. Chegou o final de semana. Ele não sabia direito onde era aquele endereço e ligou para o Adroaldo. “Cara, onde fica a rua Shunman?”. “Velho, tu queres comer a Geórgia, né? Já disse para tu tirares isso da cabeça, porra! Ela não dá para ninguém!” “Não te perguntei isso seu saco de merda. Eu quero saber onde é essa merda de rua”. O chato do Adroaldo falou.
Depois de quase uma hora de caminhada, Jonas chega na frente de uma casa simples, de alvenaria. Sua mão estava suando. Toca a campainha e quem abre é Geórgia. “Oi, você que é o Jonas? Bom, me lembro do seu rosto”. Po, isso já era um bom sinal. Quer dizer, se a lembrança foi positiva. Ele poderia ser feio demais, ou escroto demais... ela poderia lembrar também do seu rosto em alguma foto que tenha visto na casa do Adroaldo, o que não é lá muito positivo. Jonas tinha vergonha de ter alguma espécie de ligação com aquele debilitado mental. Ficou mudo por uns instantes. Ela parecia mais linda do que o seu pensamento pôde construir. Irradiava beleza. “Entre”. Aí ela se virou de costas e, pela primeira vez, ele reparou no balanço da sua bunda. Estava completamente apaixonado! Conversaram um pouco sobre amenidades, ela buscou algumas cervejas e foram rumo à festa.
Quando chegaram já estava rolando o som e era, justamente, Ring of Fire, do Johnny Cash. Uma garota esguia e bela fazia as vezes de June Carter. “Esse som é muito bom, um dos melhores do Cash. Não achas?”, questionou a animada Geórgia. “Gosto de todos, mas meu preferido é Walk the line”. Ela começou a dançar e a provocar com aquele olhar malicioso. Jonas foi buscar mais cervejas. Ficou um tempo no bar, reparando-a de longe. Será que teria essa sorte? Mas Geórgia é do tipo de mulher que não pode ficar um segundo sozinha. Logo chegou um armário nela. Era um playboy babaca que, pelo pouco que conhecia dela, logo iria ser dispensado. Mas ele insistiu. Ele notou que ela estava desconfortada com a situação e começou a ficar nervoso. Tinha que tomar uma atitude. Aí, de uma maneira brusca, ele pegou no braço dela e a tentou beijar. Porra, Jonas tomou um golaço da cerveja e já foi tirar satisfações com o armário que tinha o dobro do seu tamanho. ”Olha aqui seu...” não terminou a frase e estava no chão. O murro foi tão forte que parecia ter esfacelado seu nariz. A raiva sempre foi o forte de Jonas, que nunca se deu muito bem com os amores da vida. A raiva o movia e estava suficientemente abastecido para derrubar três daqueles armários. Quando conseguiu se reestabelecer e viu o gigante beijando Geórgia a força levantou já com uma garrafa de cerveja na mão. A quebrou na mesa e sentou na cabeça do filhodaputa que caiu como o Wall Trade Center. No chão, Jonas ainda pegou a garrafa que já tinha virado uma faca e a empurrou na barriga do armário a virando lentamente. De repente cessaram as resistências e os gritos, que antes eram de euforia, se transformaram em gritos de pavor. O homem começou a regurgitar sangue. Era um sangue denso, desses que habitam os órgãos mais profundos e vitais de um ser. Era lindo. Jonas enfiou mais a faca artesanal e começou a esmurrar a cara do valentão até ela se transformar em um purê de sangue e miolos. Tudo eram gritos. A polícia chegou. Geórgia olhava aterrorizada todo aquele pavor e não conseguia falar. Seu olhar, porém, transmitia uma tranquilidade que poucas vezes fora sentida por Jonas.
Dia 10 de abril
Na cadeia, Jonas foi jogado numa cela junto de outros presos de “menor periculosidade”, como políticos corruptos e estelionatários de todos os tipos. Eles não enfiariam uma faca na barriga de Jonas, pelo menos não materialmente falando.